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segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

A perigosa Reentrada na Atmosfera da Capoeira

Se afastando da Capoeira, cuidado ao voltar...!!


Tenho observado há tempos um fenômeno que é muito conhecido da maioria dos capoeiristas, mormente os que estejam em franca atividade, produzindo, treinando, dando aulas, vivendo-a, enfim. Esse fenômeno é muito comum e se caracteriza pelo afastamento, em maior ou menor tempo, do movimento que a capoeira produz, de natureza social, desportiva, política e, principalmente, competitiva, onde todos conhecem todos, se unem entre si, os próximos e se competem, os mais distantes.

A capoeira é uma entidade viva. Tem uma energia densa e complexa. Só os iniciados nela a compreendem o suficiente para amá-la ou deixá-la, dependendo do momento histórico em que se aproximem, se tornem capoeiristas, ou façam parte daqueles que dominam um determinado momento da sua História.

A Capoeira é muito forte! Forte em seus elementos de união, como também naquele tipo de resistência que permite aos seus praticantes, participantes, mestres e adeptos em geral, se tornarem verdadeiros guerreiros do bom combate (lutam contra a covardia, a tirania, a ignorância, etc.), como também existem os que combatem por si mesmos, formando grupos altamente unidos em torno de uma ideologia estabelecida pelo seu líder, que também é muito comum em nossa Arte.

A capoeira também tem um respeito muito grande pelos seus ancestrais. Sem dúvida tem!

Esse respeito é tão grande, que por causa disso alguns adeptos querem se tornar velho mestre muito cedo, daí a razão de pessoalmente eu ter cunhado uma patologia social muito comum na sua prática, que denominei: Síndrome da Velhice Precoce. Ou seja, pessoas que, embora razoavelmente novas, já querem se comportar como se fossem um mestre antigo, naturalmente para ter direito ao tratamento como tal e com isso ter regalias, como ter um tratamento diferenciado, receber homenagens, ser respeitado e, principalmente, ser poupado da obrigação de estar em forma, treinar, praticar, ensinar, jogar inclusive, etc.

Por tudo isso é que o verdadeiro Velho-Mestre, tem muito respeito dentro da capoeira.

A combinação dessa vontade de ser importante e a momentânea ou demorada necessidade de se afastar da capoeira, no entanto, produz um perigoso efeito de uma desconfiança e muita restrição aos que incorrem ou simplesmente se afastam por problemas que eles não podem controlar. Os capoeiristas olham com muita indignação aqueles que se afastam. Mormente os que voltam. Pior ainda, os que voltam e reivindicam seu direito às regalias dos velhos mestres.

Nesse momento é que se observa melhor esse fenômeno: a reentrada na atmosfera da Capoeira!

Imagem da reentrada na atmosfera da Terra


Já assisti muitas vezes a manifestação da indignação dos capoeiristas com relação a isso. É natural que quem está na labuta constante e exaustiva da prática de uma Arte-esporte, as vezes lutas inglórias, desgastantes viagens para participar de eventos, trabalhos dando aulas e promovendo eventos, enfrentando sérias restrições de meios, o que é outra faceta da luta dos capoeiristas, superando barreiras e inúmeros tipos diferentes de restrições e, de repente, surge alguém que para eles "abandonou o barco", quase sempre num momento difícil, mesmo porque todos os momentos da História da Capoeira são difíceis para quem está naquela situação, sustentando-a, fazendo-a se tornar hoje, um dos maiores movimentos da cultura popular da História de nosso país, já extensiva ao mundo inteiro, que combina em sua prática a educação, a prática desportiva de grande valor, a socialização, a Arte musical e o aprendizado prático de instrumentos rudimentares, mas que dão àqueles que nada sabiam de música, que não tiveram oportunidade de nenhum aprendizado musical, se tornarem muitas vezes excelentes cantores, ótimos percussionistas - alguns se profissionalizam e são respeitados nisso... enfim, a capoeira é múltipla e no caminho de quem a faça estão inúmeros desafios de superação pessoal e coletiva.


Esquecendo as contribuições e se tornando hostil aos reentrantes



Esse fenômeno, também, por vezes, guarda um lado que o torna delicado e até perigoso, pois quem, na sua vontade de retornar para o epicentro da capoeira, pula algumas gerações entre sua saída da cena e seu retorno, pois a capoeira é viva e de revezamento constante entre os seus praticantes. Sempre tem aquela pessoa que está no seu comando a cada momento, quem está representando sua energia, sua força, sua pulsante atração para quem a vê e, mais ainda, para quem teve que se afastar ou se afastou por vontade própria!

Nesse contexto, encontramos um outro fenômeno social, esse se trata de uma característica fundante da nossa sociedade como um todo, que é a questão da falta de memória ou fácil esquecimento da própria História. Nada sabemos, de fato, de nossa História. Por isso somos um povo sem memória. Isso é tão verdade que muitos políticos, por exemplo, já condenados e até banidos do cenário da política, voltam tempos depois e se aproveitam dessa falta de memória e se reelegem sem nenhuma dificuldade, pois ninguém se lembra mais o que ele fez de errado!

E se isso é verdade com relação aos erros, também é verdade com relação aos acertos. Ninguém se lembra mais do que aconteceu de bom, da contribuição de quem esteve no momento que teve que lutar pela capoeira, de sustentá-la e de fazê-la seguir seu curso na História, reificando-a em cada nova página que a História do contexto em que ela se insere, assim é que a Capoeira sempre acontece!

A Capoeira precisa sempre desses guerreiros para reenviá-la para o futuro. A cada momento, uma nova geração surge e retoma sua sustentação, carregando aquele bastão de sua conduta para as próximas gerações e, esse momento e essa energia, já acontecem por longos séculos. Alguém tem sempre que estar carregando esse importante bastão. Senão a chama se apaga e a capoeira perde sua força!

Quando se afasta, a principio, o capoeirista abdica de todos os seus direitos adquiridos durante seus dias de dedicação à Capoeira!

Logicamente, essa ideia de "abdicar" é uma visão extrema! É como se admitíssemos que somos todos ingratos e isso não é verdade!

Essa possibilidade de acontecer esse esquecimento na verdade existe!

Isso acontece porque as gerações seguintes, depois de algumas outras, aquelas que conheciam o trabalho, o jogo, a competência, a dedicação ou o que for. Simplesmente se tornam vultos dispersos do passado. Somos assim. Esquecemos tudo! Não damos muito valor ao que passou.

O caso de Brasília...! 


Essa cidade foi inaugurada há muito pouco tempo, relativamente, se comparada com centros como Salvador, Rio ou São Paulo e ainda lutamos para conseguir fundar alguma tradição, ou nossas pessoas de referência, que possam ser consideradas representantes da nossa tradição.

Mas se olhar direito, a gente vai ver que já temos algumas características bem definidas, bem reconhecidas. Uma delas é o fato de nossa capoeira ser respeitada por todo canto. Temos razões de sobra para verificar e acreditar que temos uma capoeira forte, saudável, reconhecida como dentre as melhores praticadas no Brasil e no mundo afora.

Ai resta uma questão: de onde vem isso??!! De que raízes vieram essa capoeira forte e respeitada que nosso Distrito Federal respira?! Quem ou o que produziu essa linhagem de capoeira que se tornou tão importante?! Logicamente isso não nasceu hoje, ou exclusivamente com a geração que ora habita e ocupa nossas rodas, nossos eventos, no cenário de Capoeira do Distrito Federal...!

Nascida na década de sessenta, a cidade já alcançou sua maturidade e personalidade em termos de Capoeira! De onde vem isso?! Certamente essa geração das primeiras décadas do ano 2000, já é herdeira de alguma base de conhecimento, de uma força e uma energia técnica e estética que alguém criou. Não temos como negar isso. Mas se não houver a quem agradecer por isso, também não teremos de quem herdar. Não fizemos sozinhos.

Outro dia estava em um evento no interior do Pará e um camarada me perguntou:

- Mas se o Mestre Bimba foi tão importante, por que não vemos os discípulos dele?! Onde está a linhagem deixada por ele?!

Eu perguntei para ele:

- Você usa um golpe chamado Armada?! Usa o toque do São Bento Grande de Regional?! Faz evento de batizado, usa graduação, etc?! Então, meu irmão, você é um dos herdeiros da capoeira deixada pelo Mestre Bimba. Mas você, como a maioria de nós, nem sabe disso. Não percebe que você recebeu de graça todo o trabalho e sacrifício que dezenas, talvez centenas de gerações anteriores a você fizeram na capoeira para deixar para seu uso hoje em dia! Ou você pensa que inventou tudo isso?!

Meio sem graça a pessoa teve que reconhecer que estava falando uma grande bobagem quando perguntou onde estava a herança de Mestre Bimba.

No caso de Brasília, o estilo arrojado, moderno, objetivo, eficiente, ritmado, firme e agressivo tem um ancestral comum: o nome dele é Aldenor Carvalho Benjamin, que ficou conhecido como Mestre Arraia. Que foi um dos pioneiros da capoeira do Distrito Federal e ensinou aos primeiros capoeiristas residentes e nascidos aqui. Ele simplesmente é o grande ancestral comum da maioria dos capoeiristas do Plano Piloto, embora com a dispersão da linhagem em diversos novos nós, as pessoas não mais saibam disso.

Decorrente dessa influência arrojada e inovadora, independente e muito forte, a capoeira de Brasília se tornou um dos movimentos mais influentes na capoeira modernizada em todo o país e mundo afora. Mas, assim como o rapaz do Pará me disse, pouca gente sabe disso!

Brasília criou os primeiros modelos de trabalho com a capoeira fora da Bahia, em sala de aula; em grupos mistos de homens e mulheres treinando juntos; incluindo a calistenia (treino de ginástica localizada, como abdominais e outros exercícios da ginástica estranhos à capoeira originalmente; também aqui se criou o primeiro sistema de graduação fundamentado na ancestralidade afro-brasileira; uniformes, estilos de jogo mais acrobático embora objetivo; essas, entre outras inovações, como ter a primeira mulher a receber uma corda vermelha no Brasil e, portanto, no mundo... enfim, as nossas inovações vão longe!

Mas, como dizia, poucos capoeiristas sabem disso. A razão é a deficiência da nossa memória. Talvez o ensino da ancestralidade devesse ser obrigação dos professores e mestres. Mas não é! Nada é obrigatório e cada um escolhe, prioriza, o que quer ensinar!

Com isso, naturalmente, vão ficando grandes buracos no conhecimento das novas gerações sobre seus ancestrais comuns! Ninguém pode impedir ou mudar isso. Acho.

Como disse acima e como se diz na capoeira: quem não é visto, não é lembrado!

Só mesmo com muita boa vontade iremos preencher essa imensa e injusta lacuna que vai ficando nos legados que chegou até nós.


O outro lado dessa moeda... 


Certamente temos também os casos em que as pessoas que ficaram afastadas voltam e reclamam seus direitos e nem sempre elas tem esses direitos. Não tem como saber. Quem desconhece a História, não vai saber quem é merecedor de reconhecimento e quem não é!

Por isso esse assunto ainda vai circular muito entre nós. Principalmente agora que a Capoeira tem valor, um valor muito maior do que já teve. Um valor que não dependeu de nenhuma ajuda a não ser dela mesma, de seus valorosos guerreiros que lutam todos os dias de suas vida, para que ela ocupe o pódio em que está! A capoeira venceu todos os seus desafios para chegar até aqui, na sua plenitude e cidadania madura. No estágio mais elevado da consciência de seus mestres e professores. A Capoeira venceu porque alguém a sustentou nos seus braços e ombros enquanto caminhava pelos difíceis momentos de ameaças, de perseguição, de discriminação, de desvalorização...!

Mas quem são essas pessoas? Isso não importa. Importante é a Capoeira, uma entidade viva que suplanta todos os seus elos e segue vitoriosa para onde talvez nenhum de nós irá ver!

Só podemos nos preparar, os que hoje seguram essa onda de carregarem a capoeira nos seus braços, pernas, ombros e, principalmente, no coração, sabendo que, no futuro, terão que provar que são dignos de serem reconhecimentos como legítimos velhos mestres. 

Para isso é melhor ter seus próprios discípulos e amigos capoeiristas, pois o coletivo, esse não está preparado, culturalmente, para saber o que houve há algumas décadas, já que a nossa memória não está treinada para guardar informações além de nossa própria aventura pessoal. Nossas vitórias, nossas derrotas. Ninguém estará interessado em contar.

Assim seguimos nosso caminhar rumo ao destino que Deus e Oxalá nos permita cumprir!














quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Évora, um novo capítulo na Capoeira. O verdadeiro encontro de Bambas!

Um novo tempo... ou o resgate dos velhos tempos?!



Após minha participação no último Nosso Encontro em Évora, incrível cidade medieval portuguesa, tombada e conservada com seu ancião estilo urbano, mantendo inclusive seus muros tradicionais da época, em setembro último (2017), me recolhi na expectativa de relatar o que vi e vivi naqueles dias que ali estive. Era um impasse que me colocava num dilema: ou o que eu vi estava completamente fora da realidade da capoeira atual, ou nós, lato senso da capoeira, estamos equivocados em algum ponto!

Pensei, pensei e repensei...! 
O que está errado com a nossa Capoeira...!?
Évora, me trouxe uma felicidade e, ao mesmo tempo, uma angústia...!
Me fez perceber que estamos fazendo uma coisa errada, des-encaminhando nossa capoeira para rumos equivocados e provavelmente sem volta!
Mas demorei muito procurando a maneira certa de falar sobre isso...!
Não quero briga com nossos milhões de felizes jogadores de perna, hoje chamados de capoeiristas, espalhados pelos quatro cantos do Brasil, como também mundo afora!
Não quero criticar ninguém!
Quero apenas ser sincero e se possível útil a essa Arte Secular que abracei e que me abrigou em seu seio generoso de verdades, de mandingas e de tanta energia!

Estava ali, vendo aquela roda cheia de estrangeiros, em plena Praça do Geral, Centro de Évora, onde uma centena de pessoas disputavam, tanto a oportunidade de se expressar naquela roda, ou simplesmente assistir e se deleitar, com os jogos que iam acontecendo, contagiando a todos com sua beleza e, principalmente, com a emoção que despertavam...! 
Emoções fortes rolaram...
Quedas incríveis...!
Entradas perfeitas e saídas competentes... no tempo milimetricamente certos...!
Havia algo que eu não via há longo tempo. E nem me considero tão antigo assim!
Havia um equilíbrio, uma verdade de roda e uma aceitação diferenciada pelo prejuízo que alguém levava durante os jogos!
Onde andaria esse espírito de jogo... que ninguém interrompe quando o jogo flui...?
Onde estariam esses nossos bambas de capoeira, que aceitam quando tomam um prejuízo e não se tornam - como se tornou comum - agressivos...!!?
Onde estariam nossas rodas de capoeira em que todos vibram com os jogos, mas não tentam desprezar quem levou desvantagem?
Eram muitas perguntas que me vinham.
Mas faltava uma questão básica:
o que havia de estranho em nossas rodas de capoeira desde o início da Capoeira Regional de Mestre Bimba, e essa realidade que estamos vendo proliferar nas nossas rodas...!!??


Roda na Praça Geraldo - Évora 2013
(Autoria: Sandra Carvalho)


Algumas luas depois de minhas inquietações, eu finalmente entendi o que estava errado:

- Estamos traindo a causa primeira que Mestre Bimba viu na capoeira, a da objetividade... do jogo efetivo... o jogo de resultado... o fim da capoeira estéril, falsa, sem força e sem expressão... vendida em qualquer esquina do planeta hoje... sem disciplina e sem profissionalismo!

Pois a verdade é que estamos vendo prosperar uma capoeira sem graça!
Estamos misturando nossa necessidade de nos expressar, de nos mostrar nas rodas, de uma forma tão sem sentido, que a maioria dos jogos não dura nem o tempo mínimo para acontecer alguma coisa: alguém já corre e compra...!! É como se a gente quisesse dizer: eu não jogo, mas não deixo ninguém jogar!!!!

Convenhamos...! Precisamos rever isso. Antes que seja tarde!!

Temos excelentes atletas na capoeira...!
Temos excelentes capoeiristas, mas esses que tem essa competência não têm oportunidade de fazer um jogo bonito... alguém compra em poucos segundos seu jogo!! 

O que Évora me mostrou foi mais de uma centena de pessoas educadas, capazes de abrir mão de seu próprio ego, para assistir um bom jogo, reunidas num mesmo evento...!!

Vi mestres criativos e organizados, que não interrompiam um jogo bonito, que sabiam a diferença entre um jogo comum e um especial, cheio de magia, de efetividade e, para mim o melhor, o gol no jogo...! o resultado... ou pelo menos momentos de grande vibração...!!

O que vi também foi uma razão para estarmos perdendo tantos bons capoeiras para outras artes-marciais: não estamos permitindo que ninguém desenvolva um bom jogo de capoeira! Esses jogos são fundamentais para desenvolvermos nossa capacidade de obter resultados no nosso aprendizado!! 

Também acontece que, ao apagarmos o brilho dos jogos de nossa capoeira, nos tornamos sem graça para a platéia. Jogamos para uma plateia alheia que vê uma roda de capoeira e a compara com todos os outros esportes radicas. 

Quem não estiver me entendendo, prestem atenção nas rodas que acontecem pelos quatro cantos: nenhum jogo dura mais de 5 segundos... quando muito!!! Aí eu me pergunto: como vamos desenvolver nossa Arte se ninguém tem tempo suficiente para se manifestar...!? Sem poder fazer acontecer um jogo de decisão,  um jogo bonito??

Infelizmente estamos a cada dia perdendo o brilho de nossa Arte. E enquanto não revertermos essa situação a capoeira estará caminhando somente para o seu extermínio enquanto Arte e esvaziada de seus maiores conhecimentos: a Arte da Sobrevivência no meio de uma situação difícil...!

Depois de alguns meses em que estive naquela atmosfera de bambas do povo, sem estrelas, apenas capoeiristas de brilho, como deve ser, ainda sinto os ecos daqueles momentos e percebo que esse evento (2017) não foi um acidente. Isso se acumulou nos anos que Évora vem se tradicionalizando entre os que ali se refugiam, que se encontram e confraternizam em emoções e alegrias pulsantes, mesmo para os nossos capoeiristas europeus, tão serenos e racionais, eles também apreciam - quem não o faz!! - uma roda bonita, um jogo bonito, uma volta do mundo mandingada... uma boa Capoeira, sem sobrenomes... sem ninguém dominando os momentos da roda, a cantoria, os jogos, um verdadeiro celeiro de bambas, anônimos, só preocupados com uma única e exclusiva coisa: que a Capoeira possa descer ali, na milagrosa transcedência dos desiguais, dos diferentes, dos distintos, dos graduados e não graduados, transmutação de uma energia que se torna a verdadeira chama que todos buscamos para nossa arte, em paz, mas em seu pulsar mais sagrado, mais relutante contra essa hegemonia estéril que está tentando anular nossos fundamentos, transformando-os em regras estereotipadas, medidas pela espessura dos bíceps ou dos abdômens perfeitos...! 


A roda é o lugar do mais fraco encontrar sua afirmação e sua emancipação enquanto ser igual, enquanto o portador da divina chama de Filho de Deus, que tantos pregam, mas tão poucos sabem o verdadeiro significado, na prática! 
Roda também é o lugar do Mestre se encontrar em sua dimensão de respeito ao próximo, aos ancestrais, se conectar na dimensão mais profunda de sua alma. Receber a concessão do sagrado para encontrar sua entidade interior (como dizia o Mestre Decânio) e se manifestar no espaço comum de todas as almas e consciências. 


Mestres ao pé do berimbau 

Roda do gramado - Piscinas de Évora - 2017
(foto: Professor Oclin_


Por isso tudo é que só posso afirmar, depois de contabilizar todos os prós e contras, verificar a efervescência de tantos eventos, cada um clamando por ser o melhor dos melhores, que o Nosso Encontro de Évora é uma dessas tradições que tem muito para ensinar a todos quantos tem a humildade de aprender. 

Por isso que só nos resta panfletar essa rica experiência de todos quantos ali já percorreram: 
   Viva nossa Capoeira de verdade!!
Viva os capoeiristas que não estão permitindo que suas rodas se tornem estéreis e sem nenhum realismo!!
Viva Évora e sua capoeira de bambas de verdade!!!







quarta-feira, 5 de julho de 2017

Mestre Alex, um Carcará do Cerrado


Mestre Alex Carcará


E o tempo e o Guerreiro se encontram!
Os nossos grandes capoeiristas, nunca foram grandes apenas no seu físico. Isso já sabemos! Talvez dentre os maiores e mais expressivos capoeiristas estejam em sua maioria, os de estatura média ou baixa... Tente explicar!!
Aqui no nosso Cerrado, e seu clima agressivo e de extremos, nasce um desses surpreendentes Capoeiras Alex Charles Rocha, o Mestre Carcará!
A sabedoria com que nossos Deuses ungem os nossos Mestres é deveras impressionante!
Aqui o seu Mestre, o Mestre Chibata, se instala e se torna cidadão, vindo da Bahia. Na sua grande magia, a Capoeira dá ao Mestre Chibata a grande inspiração de cultivar no Cerrado sua Arte Baiana, a Capoeira!
Mestre Chibata forma dezenas de discípulos e muitos deles se destacam no cenário da Capoeira do Distrito Federal e expandem seu horizonte para muito além das nossas ordas cerradianas, ou mesmo muito além das próprias fronteiras nacionais...!,
Entre eles se encontra o destemido, Alex Charles Rocha...
Como a inspiração chega nesses momentos, ninguém explica, nunca eu soube de uma explicação que esclarecesse como acontece, mas o Mestre Chibata o nomeia "Carcará" e, como em algumas outras Histórias da Capoeira, esse nome tem poder, como tem poder a Palavra - está na Biblia Sagrada!
Aquele menino franzino e baixote ganha os ares!
Ganha uma grande motivação para superar seus limites!
Ele ganha mais que uma alcunha, como descrevem os portugueses, ganha sua auto-imagem, ganha um desafio, o desafio de voar, de superar a distância e a seca do inverno do Cerrado!
De posse dessa sua identidade secreta, nosso camarada se desdobra para honrar seu Mestre e nunca mais se curva diante do perigo ou de seus limites: ele se dá a obrigação da superação!
Ele se torna um Guerreiro!
Seus olhos agora brilham destemidos diante das adversidades...!
Ele cruza os céus buscando suas soluções...!
Ele escolhe as batalhas mais difíceis e mais dignas de um guerreiro...!
Ao lado do seu Mestre Chibata, tudo parecia mais fácil...!
Então, num dia fatídico qualquer, em que o destino bate a nossa porta trazendo uma triste notícia, a pior possível: Seu Mestre Chibata, parte repentinamente para as Terras de Aruanda, deixando nosso pequeno guerreiro-pássaro, órfão de seu Mestre, de sua força e de sua fonte de inspiração e segurança...!!
Nosso guerreiro agora tem que se aventurar sozinho pelos céus desconhecidos das esquinas da vida!
E sofre grandes decepções como todos os adultos!
As encruzilhadas estão repletas de surpresas, algumas sombrias...!
Mas o Guerreiro se debate diante de todas as intempéries e continua firme na construção de sua estrada, seu Caminho do Berimbau...!
Com seu berimbau na mão, com o nome do seu Mestre Chibata no peito, nosso Guerreiro cresce, exatamente como todo homem devia sempre crescer: prá dentro de si mesmo!
Desvendando os mistérios de seus limites ele vai chamando para si os desafios, cada vez maiores na Estrada da Capoeira, enfrentando ora os lobos da burocracia, ora outros tipos de feras das rodas de Capoeira mundo afora..!
Mas ele aprendeu a voar!
Como seu Mestre ensinou, ele é um Carcará e esse pássaro não recua!
Outros pássaros podem ficar esperando as galinhas-mortas das facilidades, mas o Carcará não, ele "pega, mata e come", como diz a música de João do Vale (1965).
Grandes conquistas, requerem grandes batalhas e nosso guerreiro é um batalhador.
Ele está presente nos grandes movimentos da capoeira.
Está presente e se torna diretor da primeira Federação de Capoeira da Capital.
Inspirado, propõe a criação de uma nova Liga de Capoeira, mais independente e mais flexível, para contornar tantos conflitos criados pelas federações junto à Capoeira...
Entra para o Conselho Regional de Educação Física; batalha junto Governo do DF; viaja para onde tem um berimbau chamando-o...
Entra nos debates de grandes grupos de Mestres e dá contribuições valiosas com sua participação serena e consciente de que nada é extraído das pedras sem muita luta; coloca inúmeras vezes que a legislação é um anteparo para proteger quem quer segui-la e contra para quem não a respeita!
Então, num momento de grande e dramática luta, nosso guerreiro enfrenta uma doença muito difícil e agressiva para todo seu corpo e seu emocional...! Do nada ele apresenta um AVC - Acidente Vascular Cerebral e sofre sérios danos à sua fala e sua condição física...
Mas como um guerreiro e Capoeira, ele se levanta e ginga com a doença!
Supera, contrariando as previsões pessimistas, esse acidente e se recupera, principalmente cantando!
A Capoeira é seu escudo, como sempre e com ela, ele novamente volta a voar em sua vida de pássaro incansável...!
Sobe novamente o ritmo do São Bento e se associa com a ABPC, trazendo para si uma grande carga de responsabilidade e assumindo seu novo desafio, trazer para o DF, novamente, a Reunião Anual dessa Associação Brasileira dos Professores de Capoeira, comprando para si, o jogo de coordenar essa atividade de grande repercussão nacional e internacional, onde grandes mestres do Brasil e do Exterior se reúnem uma vez por ano e realizam essa grande festa da Capoeira.


O último podium de um Campeão!



Foto: Mestre Huguinho - DF
Palmas pra Capoeira - 2017 - Palmas - TO



A vida é o grande desconhecido, em seus caminhos, que sempre nos surpreendem.
Nosso campeão viveu dias de grande angústia no momento que Deus levou seu Mestre Chibata para as Terras de Aruanda...! Ele, ainda muito jovem, teve que enfrentar os mais incríveis desafios, para se manter na capoeira, para continuar sua caminhada e para ser, afinal, aclamado pela Velha Guarda da Capoeira do DF como Mestre de Capoeira...!
Mas ele, após muitos anos em que esteve no comando de sua vida e travando grandes batalhas em seu caminho, vem a Palmas, Tocantins, para o que seria, para ele, mais um evento, mais uma vivência, mais alguns momentos de grande aprendizado junto à grandes Mestres ali presente... Era mais uma dentre suas centenas de eventos...!
Mas, como o destino é um senhor do qual nada sabemos, arma uma das suas peças, colocando a todos nós e ao próprio Mestre Alex Carcará, principalmente, numa grande e definitiva encruzilhada...!
Após participar em três dias de atividades, empolgado e feliz, aproveitando cada segundo daquelas horas, jogando, cantando, tocando berimbau, conversando animado com as dezenas de amigos ali reunidos, chegou a dar uma aula de alongamento e aquecimento antes da "Corrida do Capoeirista", a qual ele próprio participaria...
Parte nosso campeão e chega em segundo lugar na categoria dos maiores de 50 anos... entusiasmado, feliz e super integrado em todo aquele movimento...!
A foto acima mostra o momento em que nosso Campeão chega em segundo lugar e sobe ao podium improvisado da Corrida do Capoeirista, que termina, por praxe, numa roda de capoeira, onde os competidores tem que demonstrar que são capoeiristas... jogando e participando da animada roda do final da Corrida...!
Tudo na mais perfeita ordem...!
Na noite de sábado, após todo o desgastante dia, para todos os participantes, com corrida, rodas, treinos, palestras, etc., todos os mestres se recolhem ao hotel e buscam relaxar. Entre eles nosso Campeão...!
O domingo começa sem pressa, com todos se reunindo em torno do ultimo café da manhã coletivo e tudo ia muito bem...!
No almoço na casa do Contra-Mestre Asa Delta, todos reunidos e a poucas horas de partir o avião, o Mestre Alex Carcará se sente mal e pede para repousar num dos quartos da casa... 
Poucos minutos depois, ele se sente pior e teme que possa estar tendo um novo AVC...!
Preocupados todos nós, há um consenso dos presentes de que ele deveria ser levado ao atendimento num posto de saúde das proximidades. Tudo é feito em poucos minutos. 
Por volta das 14,00 horas do domingo, ele sai com alguns amigos e um discípulo seu que havia participado do evento, o ContraMestre Coruja.
Em mais ou menos 50 minutos, todos ali presentes recebem a noticia de que ele havia sido devida e prontamente atendido. 
Dali, descartada a tese de AVC, uma das maiores preocupações do Mestre Carcará, pois os médicos chegam a conclusão de que existe uma trombose em sua perna direita. O problema não era o que seria o pior, ou seja, um AVC, mas não tinha nenhuma tranquilidade com a possível trombose... Claro!
Mas, indedendente do diagnóstico inicial, ele é levado para o Hospital Geral de Palmas, onde é submetido a diversos exames, de imagens, eletros, sangue, etc. 
Tranqualizados todos nós, cada um seguiu seu caminho de volta às suas origens, principalmente porque os voos eram mais ou menos próximos.
Estava decidido pelos médicos que ele deveria ficar sob observação e acompanhamento.
Já em Brasília, a cada minuto novas informações sobre o paciente e tudo ia bem. Mais relaxados, ficamos sabendo que ele deveria ficar 72 horas em observação.
Já quase tranquilos com todo o epsódio, estou em Brasília e, pouco depois das 15,00 horas da segunda-feira, dia 26JUN2017, após o almoço e ansioso pelo primeiro contato pessoal entre os capoeiristas de Palmas e ele, o paciente Alex Charles Rocha, descansando após o almoço, sou despertado com dezenas de chamadas...!
Uma voz assustada, quase balcucia do outro lado: o Mestre Alex faleceu!!!!!
O mundo parou!
O berimbau silenciou...!
Qualquer coisa deixou de fazer sentido por alguns minutos!
Ninguém sabia o que fazer!
Era uma daquelas situações que ninguém nunca está preparado!
O diagnóstico da causa-mortis foi a veia aorta que não teria suportado a pressão sanguinea!
Nosso campeão seguiu seu caminho para outro Plano!
Foi se juntar com seu Mestre Chibata!
Cumpriu sua missão, ou grande parte dela, pois se continuasse ainda teria muito caminho para caminhar, muito o que fazer, muito o que ensinar, muito o que aprender!
Pois o Caminho do Berimbau é o Caminho da Nossa Vida!
Até onde a vida vai... até onde Deus permite!
Mas sempre levando nosso berimbau em nossa mente, em nosso corpo, em nossa Alma!
Descanse em paz desse Plano aqui, Guerreiro!
Agora seu caminho é nas Terras de Aruanda!
Com a Luz de Oxalá apontando o seu novo Destino!!
Vá em paz, guerreiro da luz, pois sua obra está completa! Seu legado será o farol para seus discípulos e seus filhos seguirem seu caminho e construir sua própria história, na grande caminhada de cada um deles, rumo ao ocaso dos tempos, carregando aquele mesma chama  que você recebeu de seu Mestre Chibata e que agora pertence aos seus descendentes!

Adeus, amigo!!















domingo, 18 de junho de 2017

Uma Roda de Capoeira à Francesa...!??



Foto: Albi - França - by Skisyto

No meu Caminho do Berimbau, a vida vai se desdobrando em grandes saltos, onde o aprendizado sobre nossa Arte vem o tempo todo em grandes e densas doses de surpresas e novos entendimentos dessa que parece ser uma Arte de infinitos saberes: a Capoeira!
Uma das ultimas e inusitadas paradas foi na pequena e linda Cidade de Albi, ao Sul da França, mais conhecida por sua imensa Catedral, feita há mais de trezentos anos, toda em tijolos de barro, uma obra surpreendente, sem dúvida. Fica a oitenta quilômetros de Toulouse, uma das grandes cidades francesas.
Nessa cidade fui surpreendido por uma incrível experiência, onde muitos conceitos em que acreditava se desmoronavam irremediavelmente...!
Até então, fui sempre acometido de um paradigma nacionalista e limitante (hoje admito!) de que a Capoeira depende de nossos obstinados, fortes e dedicados professores e mestres, que emprestam sua energia de maneira quase invisível aos olhos menos atentos, para que a Capoeira ande e se instale mundo afora, pelos quatro cantos do planeta!
Nunca alguém poderia lhes tirar esse mérito: o de serem os grandes protagonistas da expansão e da explosão que a capoeira teve nas últimas décadas, se incorporando aos mais estranhos e exóticos lugares e culturas do mundo!
É incrível, verdadeiramente, que possamos ter chegado tão longe!
Em outros artigos, já cheguei a comparar - e fiz essa afirmação perante a comunidade angolana de capoeiristas e escritores, que a Capoeira se tornou a Nova Diáspora da mensagem afro-brasileira pelo mundo, se incorporando aos costumes de comunidades instaladas em lugares inimagináveis, com temperaturas baixíssima, como na Noruega, ou na Finlândia, se tornando uma opção de povos que não conseguem - no primeiro momento - falar uma única palavra em Português - mas que vão se envolvendo de maneira irreversível às nossas palavras, nossos gestos, nossa História, numa simbiose impressionante, onde após algum tempo, não mais se reconhece as pessoas que originalmente se iniciaram na Capoeira e a incorporaram, tornando-a sua própria forma de vida.
Nesses recônditos lugares, quase sempre, até então, eu sempre via ou soube de um guerreiro e incansável capoeira, seja uma pessoa que já circula há longos anos, ou outros mais jovens, que se aventuraram pelo mundo, levando no coração uma missão, na mente uma ideologia e na alma um guerreiro sem medo de abandonar suas raízes e se atirar no desconhecido de outras culturas levando seu berimbau, sua Arte e sua vontade de levar as mensagens que aprendeu com seu mestre.
Conheci e a cada dia conheço inúmeros desses inveterados e obstinados guerreiros, mensageiros de nossa Capoeira. Sempre e com toda razão, cheios de orgulho de sua própria História de vida e do sucesso de seu trabalho e de sua missão.
Esses capoeiras são, com absoluta e irrefutável razão, os grandes responsáveis pelo fato de a Capoeira ter se espalhado como uma grande malha humana que une culturas e povos, elimina barreiras, supera dificuldades como idiomas, como limitações financeiras e se tornam, via de regra, grandes e consagrados representantes de nossa Capoeira por onde andam.
Após conhecer inúmeras realidades até aqui, sentia e via sempre associado ao sucesso da difusão da Capoeira, esses brasileiros mencionados, aos quais jamais será negado esse mérito.
Mas, como é um velho hábito dos pensadores, sempre acredito em perguntas mais do que em respostas...!
Por isso, me ocorreu uma grande questão: onde e como ficaria a nossa Capoeira, após sua assimilação profunda pelos nossos queridos estrangeiros? Será que eles teriam sempre a dependência de algum brasileiro que os mantivessem alinhados com nossos ideais e velhos rituais de roda?
Teriam eles a competência de organizar um evento de Capoeira sem perder nenhum dos inúmeros detalhes exigidos para tal, como seja: o lugar adequado; instrumentos afinados e suficientes; uma programação capaz de manter os participantes ocupados e animados com o evento; alegria e axé em volume e distribuição pelos três ou quatro dias que durasse o evento, etc.
E o mais difícil para nós, mesmo no Brasil ou mesmo na presença de muitos e diferentes mestres: fazer uma roda com a grandeza que esperamos dela...!?
Essa roda teria que ter muitos elementos para atender a tantos requisitos que nós, capoeiristas, nos acostumamos a medir: musicalidade, volume de jogos, nível vibracional, nível técnico, participação de todos os presentes, equilíbrio emocional - para segurar os ânimos quando alguém se exaltasse - e enfim, teria o axé que a sustentaria todo o tempo do evento!?
Quem não está acostumado a conviver com capoeiristas, não tem ideia da quantidade de critérios que eles trazem no seu alforje de especialista! Um capoeirista vê e distingue vários e distintos tons de jogo, os diferentes níveis técnicos dos participantes, o axé, como genericamente a gente se refere ao padrão de uma boa roda!
Mas esses são apenas os mais óbvios questionamentos de um bom Capoeira! Os Mestres tem outros tantos níveis de percepção das coisas e mesmo o grau de entrosamento dos participantes não lhe escapa aos olhos.
Enfim, ali estava um capoeirista com uma bagagem de mais de quarenta anos de estrada, em sua humilde tranquilidade de nunca exigir muito de ninguém, ou seja, não ser muito critico com as diversas realidades já conhecidas. Não tentar corrigir gratuitamente ninguém, ou interferir sem a devida vênia dos presentes, em nada que não fosse absolutamente necessário. Ouvir muito mais e falar muito pouco. As palavras são nosso maior risco. Um observador discreto e despretensioso.
Por costume e pelo pequeno aprendizado dessa vida, tenho a mania de chegar em terra alheia e me colocar bem longe de qualquer pretensão minha de julgar, ou seja, pisar sempre devagar!
Além de ter aprendido também que em casa alheia, como o que me derem, como já ouvi muitos sábios dizerem, na voz corrente da sabedoria e da ciência de vida, ensinada pela Capoeira.
Uma primeira e agradável surpresa, foi a infinita gentileza com que as pessoas me cercaram nessa Petit Ville, como dizem os franceses. Eu recebi tanta atenção e tanto acolhimento por todos que tive o meu coração invadido por uma gratidão extrema! Logicamente isso veio acompanhado da minha grande vontade de também ser generoso e de me doar totalmente àquelas pessoas, aquele povo simples, sem opulências, sem nenhum traço exterior de riqueza material... Apenas aqueles abraços e aqueles olhos me enterneciam de um sentimento de grande emoção e de uma gratidão imensa.


Começa o evento...! 

Imagem do evento que mencionava minha pessoa!


É noite de sexta-feira e será feita uma roda de recepção apenas, para as boas vindas aos participantes, como é de praxe nos eventos. Muita gente chegando e a festa começa a ganhar seu tom...! Cada novo participante que chegava trazia sempre um sorriso... e oferecia um forte abraço aos que ali já estavam.
Começa a roda, inicio do entrosamento e preparação para os três dias que se seguiriam. A roda teve bons momentos e uma energia tranquila e equilibrada.
Para aquele primeiro momento era mais que o suficiente. Muita gente ainda chegaria no dia seguinte, pessoas que trabalhavam ou tinham outros compromissos.
Até a manhã de sábado as coisas estavam ainda mornas, como é costume em todo evento. Seguir os passos do aquecimento. A revelação dos talentos, até então contidos na expectativa de um clima que os liberte, assim como dizia sempre o Mestre Decânio, da segunda turma da Capoeira Regional de Mestre Bimba, esperar para que o transe capoeirano possa acontecer em cada um.
Não havia um plano muito rígido a ser seguido, explicava o promotor do evento, denominado WEC2k17, ou seja, Week-end Capoeira 2017, um simples fim de semana prolongado.
No sábado as coisas já foram mais animadas e, como todo bom evento, as pessoas foram se entrosando enquanto o dia corria, entre um treino, uma aula, um lanche, e o normal entrosamento cada vez mais sólido.
Então tudo seguiu seu rumo como tradicionalmente acontece no andar dos eventos.
Até então tudo pareceu seguir o mais tradicional andamento da maioria dos eventos que já estive (aproximadamente uns setecentos, nos meus quarenta e tal anos de estrada).
As rodas começaram a me chamar a atenção.
Ficava curioso com a ideia de que ali não havia outro brasileiro que não a minha pessoa.
Então comecei a prestar mais atenção ao que acontecia durante o andamento das rodas que iam acontecendo durante aquele evento, que contou com mais de uma centena de pessoas, sendo todos eles aculturados na língua francesa e a grande maioria de nacionalidade também francesa.
Como é uma roda com tanta gente, onde não há nenhum capoeirista brasileiro?
Até que ponto eu estaria vendo uma manifestação verdadeira e inquestionável da nossa Velha Arte, da Capoeira?
Aquelas pessoas teriam o domínio de todos os elementos que compõem, no minimo, uma roda?
O ritmo cresceria ao ponto de exigir um grande esforço para manutenção do equilíbrio daquela energia que pulsava no acelerar do ritmo do berimbau na execução do São Bento Grande, de Angola?
Aqueles capoeiristas, teriam o domínio da energia da roda suficiente para segurar os ânimos quando alguém se perdesse no axé da roda e quisesse se confrontar?
Não. Ninguém tinha ideia de que tudo aquilo se passava pela minha cabeça...! Nem eu!
Não estava julgando ninguém...!
Essas perguntas me ocorreram agora, enquanto escrevo o que vi, me lembrando o máximo possível dos detalhes.
Tais perguntos, eventualmente, poderia ser feitas por quem, diante de alguma incredulidade, tentasse julgar todo aquele movimento dos cidadãos franceses para com a capoeira...!
Alguns, certamente, com a intenção de emitir algum tom de crítica ao que aconteceu ali!
Nós, os brasileiros em geral e os capoeiristas em particular, temos uma vocação horrível de falar sempre só a parte ruim das coisas!!
Aquele clima, aquelas pessoas,aquela experiencia, não teria nada que ver de ruim!
Nada pode ser mais importante do que a parte boa das coisas. Eu acredito nisso.
Não só por isso, as impressões que ficaram em mim foram maravilhosas!
Aquelas Capoeiristas todos, vivendo de uma maneira integra e completa para e da Capoeira, uma das nossas mais importantes culturas populares dos últimos tempos, que tem nos transportado para nos tornar uma cultura da humanidade, como decretou a própria Unesco... Esse momento poderia ser uma boa hora para se perceber o porque dessa aclamação.
Por que a Capoeira se tornou um Patrimônio Cultural da Humanidade!?
Por que todos esses anos de sua história ela não foi devidamente desvinculada de nossa cultura popular brasileira, então?!
Mal podemos imaginar que seria possível uma unica roda acontecer sem a presença de um capoeirista brasileiro para coordenar as coisas fazer acontecer o clima que esperamos de uma roda!!
Muitos de nós mantem estrangeiros cativos de sua presença, intimidando-os para não tenham competência própria para se organizar e crescer...!
Mas a Capoeira é Mágica!
Ela chega onde é chamada!
Dialoga com qualquer realidade!
Se os franceses não tem os nossos problemas para justificar algumas coisas que fazermos acontecer através da Capoeira, como reintegrar socialmente pessoas, ajudar pessoas de comunidades pobres,, tornando a Nossa Arte uma das esperanças que essas pessoas precisam, para dar sentido a suas vidas!
Ou se nós temos hoje uma quantidade tão grande de mestres e de graduados na capoeira, que os eventos são praticamente feitos  para eles!
Desde há muitos anos, tenho falado na pirâmide social da capoeira, no Brasil pelo menos, onde a maioria dos presentes são mestres ou graduados.. onde isso cria uma estranha competição entre tantas pessoas importantes naquele momento, naquela roda!
Por isso muitas disputas acontecem. Muitas vezes em desequilibro emocional visível.
Mas não se trata da ausência de alguém para ensinar!!!
Se trata de dizer até mesmo que esses capoeiristas tiveram excelentes professores e mestres!!
Alguns já bem antigos na prática da Capoeira se tornam naturalmente os lideres daquele evento, destacando-se os indiscutíveis méritos do organizador daquele evento, o Furrupa, uma pessoa que merece um capitulo a parte, que vamos tratar mais abaixo.
Estou falando de um grupo de capoeiristas mais antigos que ali estavam, todos eles empenhados e dando o seu melhor, para que a Capoeira estivesse à altura de qualquer outra roda no Brasil... ou em qualquer outro lugar!
O evento, como qualquer outro, teria que ter uma sustentação de capoeiristas mais graduados. Essa foi uma das coisas mais incríveis que presenciei:
 - espontaneamente, as pessoas foram se envolvendo e os mais graduados, independente o titulo que tivessem - professor, monitor, instrutor, etc;
- os papéis existentes numa roda de Capoeira, normalmente representados por uma única pessoa, que coordena e cobra as ações que deem suporte ao momento, são inúmeras, pois a Capoeira é uma cultura coletiva, inclusiva e integrativa...! todo mundo vai ocupando seus lugares em volta da roda, dentro dela, fora dela, jogando ou simplesmente fazendo o coro para que outras pessoas possam jogar, alguém precisa preparar os instrumentos, outros precisam cuidar da retaguarda, outros da limpeza, da administração, dos microfones, do lanche, do almoço, etc... são infinitas pessoas que cuidam de tudo que é necessário para que aconteça uma boa roda, um bom evento.

Ali eu presenciei todos esses papéis acontecerem sem nenhum comando aparente...!

O organizador do evento, Furrupa, parecia mais um grande incentivador do clima todo e da alegria ali reinante, além, é claro de usufruir bastante também naquelas rodas todas que aconteceram!

Sua parceira e também capoeirista, conhecida como Cha-Chá, era uma das forças invisíveis que operava o milagre de todo aquele evento!

Ela era discreta e efetiva! Trazia sempre alguma solução debaixo do braço e não parecia perder nada do que acontecia, ou seja, as rodas as aulas, os números que foram preparados e depois apresentados e que encantaram a todos os presentes, inclusive me tocando profundamente... era uma grande presença... suave e constante! Acordando super cedo para ir buscar pessoas que chegavam... organizando espaços para acomodar todos os convidados... fazendo compras e organizando as refeições dos participantes...!

Outros destaques só foram percebidos, porque fiquei o tempo que pude como observador, depois que me dediquei a resgatar da memória todas essas perspectivas que aqui coloco.


Capoeira de corpo e alma, que joga vivendo e vive gingando

Os capoeiristas, em geral, são apaixonados por essa Arte e se dedicam a ela longos anos de sua vida, alguns a sua vida todas. Isso pode ser verificado com inúmeros casos de mestres que entregaram sua vida à prática e a divulgação da capoeira, além de muitas outras formas de sua produção, como músicas, textos, instrumentos, palestras, livros e, principalmente, ensinar outras pessoas.
No entanto, existem pessoas que, mais do que amar, se tornam a si mesmos, a própria Capoeira!
Essas pessoas são tão estritamente associadas à capoeira, que transformam suas vidas em uma dedicação extensiva à Capoeira. Pessoalmente conheço muitas pessoas assim e admiro profundamente a capacidade de se doar a própria vida para aprender e serem porta-vozes da Capoeira. Essa arte parece cativar de modo irremediável incríveis personalidades, fortes, criativas, dedicadas, disciplinadas, expressivas, artistas, poetas, pensadores, estudiosos, enfim, pessoas que entregam toda sua energia vital a essa Arte.
E elas não recuam diante de dificuldades... nem restrições... nem competições... nem falta de apoio... nem nada...!!!
Essas pessoas ampliam ainda mais o seu carisma, quando impregnadas da capoeira em seu corpo e em sua alma!
No Brasil existem muitos capoeiristas assim!
O que foi uma grande e grata surpresa foi encontrar pessoas com essa personalidade capoeirista tão absolutamente destacada, cidadãos não brasileiros, que falam corretamente o idioma, dominam a arte, se entregam sua vida a aprender e a divulgar a Capoeira...!
Encontrei diversas dessas pessoas durante esse tempo na França!
Quero deixar registrado aqui o nome de alguns deles, me perdoem os que eu não mencionar, o que se dá exclusivamente pela limitação da minha memória...!!
Entre eles quero destacar:
Furrupa, um capoeirista de corpo e alma! Grande responsável pelo evento e que se tornou o pivô de toda a grandiosidade do mesmo! Gratidão e reconhecimento! Furrupa dedica sua vida totalmente à capoeira! Tornou-se Capoeirista independente desde quando percebeu que estava limitado em sua necessidade de crescer e de se integrar com outros movimentos e outras escolas de capoeira. É pilhado ao extremo e tem uma hiperatividade visível! Tem uma veia critica e criativa e não admite erros básicos como o desrespeito aos alunos, assédio ou outras formas de macular a Capoeira, como uma Arte de Família, de todas as idades. Furrupa é super produtivo e tem diversas atividades dentro da Capoeira, como dar aulas, criar músicas, manter um programa na internet, um vídeo-blog onde ele debate abertamente, em francês, as questões da capoeira que ele percebe e que vive (ver link abaixo).
Ferrugem: um grande capoeirista, grande pessoa e que tem um dom em particular o de manter o equilíbrio das energias na roda... Toda vez que um pequeno desequilíbrio começava a se formar, o Ferrugem rapidamente comprava o jogo, impedindo a evolução para um problema maior! Grande pessoa, bem-humorado e gente boa!
Porco-Espinho: capoeirista sério, com um grande domínio do ritmo e do axé da roda, sempre que pegava o berimbau fazia as coisas ganharem novo fôlego na roda. Excelente capoeira. Longos anos de aprendizado.
Mestre Bem-ti-vi: Um dos primeiros mestres estrangeiros que conheço! Tem um português perfeito, ao ponto de eu perguntar se ele era brasileiro! Um dos maiores exemplos que o Bem-ti-vi deu durante o evento, foi se manter tranquilamente, exatamente como eu, sem interferir nas coisas! Essa atitude é difícil de se ver, pois quase sempre nossos graduados tentam dominar as coisas e se tornarem os grandes responsáveis pelos eventos!
Medusa - um capoeirista excelente, de uma presença forte e segura, que foi muito presente nas rodas, nas aulas e que apresenta uma grande e natural liderança por onde chega e onde anda!
Esses e outros tantos que ali estavam mantiveram uma incrível atmosfera durante todo o evento e me pareceram muito próximos entre eles!
Alunos e participantes do WEC2k17: todos merecem o meu aplauso, mas escolhi alguns dos momentos foram emocionantes durante o evento! Um deles estou compartilhando o link abaixo, quando as capoeiristas apresentaram um lindo teatro da capoeira no contexto da escravidão no Rio de Janeiro e depois fizeram uma linda interpretação de músicas de capoeira usando um violoncelo, um teclado e um acordeon! simplesmente sensacional! Confiram no link!


Conclusão...

Após tantas percepções aqui registradas, posso afirmar que a Capoeira cumpre seu papel onde ela chega! Destaco, novamente, o papel das pessoas que ensinaram essas pessoas foi cumprido! Eles transpiram capoeira da maneira mais nobre, mais fiel, mais entusiasmada, mais dedicada e mais contagiante!
Posso perceber que uma roda à Francesa, é uma roda de capoeira de valor!
Posso ainda, para finalizar, me apropriando da percepção de meu amigo Mestre Jean, com quem comentei esse texto, que os franceses encontraram uma saída á francesa para os problemas que enfrentamos na capoeira no Brasil! Gente graduada demais disputando as rodas, os comandos, os jogos, onde os egos se multiplicam e competem entre si para ver quem fica mais em evidência, pois nossos camaradas da França fazem o melhor de dois mundos: tem uma capoeira excepcional, um clima amigável e rico, ao tempo em que eleva o axé até onde podem, se que haja nenhum desequilíbrio por animosidades desnecessárias!
Obrigado pela oportunidade, amigo Furrupa!
Obrigado galera presente no WEC2k17, foi uma honra estar presente num momento tão lindo desses para a nossa Arte...!

À tout à l'heur, France!


Página do Trabalho do Furrupa

Momento durante o evento: apresentação de criações artísticas pelos alunos



terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Uma Estrada, a Capoeira... (The Long and winding road)



Nos finais de séculos, diz-se que existem muitos movimentos de grande impacto na humanidade ou mesmo no planeta.
No ano de 1993 eu lancei o meu primeiro livro, “Capoeira, o Caminho do Berimbau” que chegou a 2º. Edição e não foi mais longe por absoluta preguiça da minha parte, principalmente no que se refere a distribuição do livro, pois no Brasil (talvez no mundo ocidental inteiro!) a produção de livros de natureza cultural independentes não desperta nenhum interesse na indústria editorial e, muito menos, nos canais de distribuição de livros impressos.
Aquele livro eu trouxe uma inquietação que já me despertava para o que eu percebia sobre as artes-marciais orientais, onde todas elas eram compreendidas como um “Caminho”.
O que percebi, na verdade, foi que a palavra DO, associada aos nomes das artes-marciais significa sempre caminho, enquanto uma definição de direções por onde andar para conhecer os fundamentos, as técnicas, a sabedoria, enfim, os conhecimentos e segredos da linha de sabedoria que se encontra por traz de cada arte-marcial.
E a capoeira deveria ter o seu próprio DO. Sempre acreditei. Sempre intui sobre a existência desse Caminho dentro dos fundamentos, da História, das técnicas, do conhecimento, enfim, que a capoeira traz em si.
Mas eles nunca haviam sido revelados, traduzidos enquanto uma direção por onde se deveria caminhar para que se auferisse os ganhos que essa Arte maravilhosa nos traz.
Logicamente muitos mestres trataram disso no que fizeram, ou disseram. Muitos inclusive escreveram, como fez Mestre Pastinha. Ou todo o legado de Mestre Bimba, que inclusive deixou um livro escrito que orientava seus discípulos quanto ao que seria, para ele, esse caminho.
Cheguei a pensar que o livro deveria se chamar de Capoeira-DO, ou seja, o Caminho do autoconhecimento através da Capoeira... mas acabei chamando de o Caminho do Berimbau, pois todos os capoeiristas de verdade respeitam o berimbau como a alma da capoeira, como o seu lado de maior crescimento e de mais profundo significado.
Mas essa ideia estava apenas se iniciando.
As noções sobre os potenciais crescimentos produzidos pela prática e pelo aprendizado da capoeira nunca deixaram de me abrir novas perspectivas, novos insights e novas janelas para visualizar novos caminhos e novas visões que a arte abriga dentro de seus fundamentos mais sagrados, mais profundos, dentro da sabedoria dos mestres, dos estudiosos, dos cientistas, dos seus griôs, dos capoeiristas...
Tudo isso pode ser encontrado em muitas fontes como em livros, e nas letras das músicas da capoeira, algumas próprias e outras trazidas do cancioneiro popular, ou do folclore – fonte mais elementar da manifestação dos saberes e do pensamento do capoeiristas e da capoeira, como também e principalmente nos diálogos, nas reflexões feitas pelos seus mestres, que se comunicam através de suas criações e improvisos musicais. Mormente os mestres mais antigos, donos dos saberes essenciais, os fundamentos que compõem as bases de toda a sabedoria por traz e dentro dessa Arte secular.
Assim, a cada dia que tenho vivido dentro dessa impressionante fonte de aprendizados e novos conhecimentos, a verdadeira água de beber eterna e nunca concluída sabedoria adquirida na vivencia dessa prática, na convivência com ilustres Mestres desse saber popular, sou iniciado a cada dia numa nova perspectiva dessa arte, desde a mais simples e inspirada nova música, elaborada pelas novas gerações de capoeiristas e mestres, como também velhos saberes que se reificam, se refazem dentro de minha mente e vão iluminando novas perspectivas para compreender um pouco mais sobre essa Arte secular.
Recentemente tenho me debruçado em compreender a construção da estrada da Capoeira.
Ou seja, quem e como se constrói as bases onde se sustenta essa sabedoria, já que ela, diferentemente da ciência, fortemente sistematizada, documentada e regulamentada, se insere na categoria de saber popular, conforme definem os cientistas e doutores da Sociologia, da Antropologia, da História, da Ciência Política, da Educação & Pedagogia, da Educação Física, etc.?
Intrigante pensar no modus operandi  (a maneira como acontece, como opera) da capoeira.
Se existe um Caminho, alguém construiu!
Se está construído podemos então usar. Pode-se passear nessa estrada, pode-se caminhar nessa trilha e beber da água dessa fonte construída!
Mas como se constrói e quem faz essa Estrada...?
A vida vivida na pressa dos anos recentes, tornou nossa sociedade dotada de uma atitude tipicamente de consumo. Se está aí, está à venda, pode-se comprar e usar.
Mesmo coisas antes consideradas sagradas, que eram obtidas mediante algum mérito, hoje se pode comprar, no mercado das grandes vitrines (como diz o Mestre J. Bamberg, o Mestre Angoleiro) das ofertas via web... está tudo aí para quem quiser obter ou usar. Basta acessar. Basta comprar.
Mas, felizmente, esse crescimento do mercado não desacelerou a produção de novos conhecimentos. Pelo contrário, o estimulou, pois muitos – como eu – se sentem na obrigação de entrar nesse cenário e agir de uma maneira que considera correta e livre de influências mercadológicas.
E, como eu, sei que muitos agem por amor à arte. Amor a causa. Por amor à Capoeira, nossa Arte secular, concebida no calor da luta libertária e no torpor inconsciente da sabedoria popular.
O trabalho de quem ajuda a construir essa estrada é o mesmo de quem sistematiza essa sabedoria, quem traduz os símbolos sagradas da capoeira para quem se interessa por ir além de jogar apenas pernas para cima ou aprender a se esquivar de seus desafetos, dos golpes que os ameacem.
Os que podem ter o privilégio, de ter acesso a algo escrito, por sorte, hoje uma grande parcela da população mundial. O que torna imperdoável termos alguém sem acesso a isso, a esse saber básico da leitura.
Embora também eu saiba que a capoeira é ancestral!
Afrodescendente, afro-brasileira, guarda em sua essência e em sua ontologia a sua alma tribal, onde sua sabedoria é transmitida pela voz de seus griôs, de seus mestres, de seus guardiões discretos e que na calma de sua fala transmitem sua verdade...
A cruzada secular que trouxe a capoeira aqui, nesse século de luzes digitais brilhando sobre as mentes, não foi fácil.
É dela que se trata essa Estrada!
Deixar que a pressa crie a inocência de que se está sempre começando um novo tempo, onde o que havia foi esquecido ou totalmente substituído é um desserviço a Capoeira!
É isso que faz a diferença entre nossa rudeza ocidental em desprezar o que nossos antepassados construíram para nos trazer até aqui essa sabedoria, esse legado.
Por isso o oriental já trata sua Arte pelo nome de DO, de Caminho.
Enquanto nós ainda somos inocentes em achar que estamos começando novos caminhos todo dia.
Essa falta de sensibilidade e de respeito nos faz ser incrivelmente deselegantes com nossos velhos, com nossos mestres, com aqueles que podem ter suas limitações, diante de toda a soma desse manancial que hoje nos chega, mas que, a seu tempo, foram os que seguraram em suas mãos e em seu peito esse saber que transferiram para seus discípulos, no gesto generoso e eterno do amor à arte e as pessoas que o cercavam, no momento em que era, ele, a fonte desse saber.
Eram a forca da vez que construíam o seu pedaço da grande e sinuosa estrada de nossa Arte.
Construíam o Caminho do Berimbau.


sábado, 29 de agosto de 2015

Capoeira, Mãe Generosa!


Imagem - fonte: www.genius.com 



Mãe Africa engravidou em Angola
Partiu de Luanda e de Benguela
Chegou e pariu a Capoeira
No chão do Brasil verde-amarela!
(Paulo César Pinheiro)



Todo capoeirista sempre diz: "a Capoeira me deu muita coisa!"
Mas até onde vai essa afirmação? De onde vem essa crença ou essa verdade?
Ora pois-pois, diriam os portugueses: é quase óbvio isso!!
As formas com que sentimos a generosidade da capoeira é extensiva!
Desde os primeiros contatos, um iniciante já se sente impulsionado por um magnetismo irresistível!
Alguns fogem de restrições dos pais e vão de maneira oculta para os treinos.
Outros tem que se desdobrar para se livrar de outros compromissos ou simplesmente conciliar seus afazeres com a prática da capoeira.

Mesmo depois de anos praticando capoeira e já formado, somos movidos por um comichão de prazer e de incitação que nos arrasta para nossos treinamentos e, principalmente, para as rodas de capoeira.

Ela produz em nós, capoeiristas e mesmo alguém que simplesmente assista uma roda ou um bom treino, um tipo de endorfina! Um prazer que não é só o mesmo que todas as atividades físicas possam produzir. Tem algo mais.

Esse algo mais é espírito libertário que libera nossas amarras e nos faz voar em nossa imaginação e emoções...

A música - principalmente a de raiz, tocada e cantada de forma ritual e com o respeito as ancestralidades nela contidas - é de uma força e energias tão intensas que ninguem fica impune!

Já tive oportunidade de conversar e ser entrevistado por uma pesquisadora de uma universidade francesa, L'Ecole de France, que estudava a música e os aspectos terapêuticos dela, onde a mesma buscava a dimensão em que a música pode alterar nossos estados de consciência e, para estudo de caso, ela decidiu estudar a musicalidade da capoeira. Ficou extasiada com o que conheceu!

Infelizmente no Brasil ainda não tivemos estudos dessa natureza, já que ajudariam a tirar o carma da discriminação que sempre rondou a capoeira e a nossa cultura popular em geral. Reconheço que não posso comprovar que esses estudos não existam. Apenas afirmo que não os conheço!

De onde, afinal, vem essa tão importante energia e essa fonte de prazer que parece inesgotável?

Vem, como tantas outras, de nosso Continente Africano. Ninguém duvida!!

Essa mesme energia nos torna o que somos: um povo distinto em sua índole que, embora pobre materialmente e infestado de tanta moléstia de caráter (provavelmente importada da influência branca, européia e ocidental, de onde vem toda a lógica da competição, da ambição e de todos os pecados capitais!), nosso povo é rico de festass, de amor e de alegrias em tantas embalagens!

E a capoeira é onde deságuam tantas fontes dessa alegria, dessa felicidade de existir, dessa explosão constante de catarzes coletivas, onde a amizade permeia e a harmonia percorre os mais remotos sítios humanos de todas as línguas.

Sempre temos onde menos se espera um coletivo de pessoas se entendendo na linguagem da capoeira.

Essa generosa expansão nunca teve fim.

O Mestre Pastinha, já dizia: o seu fim é inconcebível ao mais sábio dos Mestres! se referindo à uma possível fronteira onda a Capoeira poderia chegar...


TIPOLOGIAS DE RELAÇÕES COM A CAPOEIRA (por enquanto!)

Cada um de nós consegue enxergar a capoeira até onde nossa competência e conhecimento permite. Mas os diversos estilos de capoeira não podem ser contidos em definições simplistas!
Quem tiver essa intenção vai ter um grande desafio.

Antes e principalmente os capoeiristas se agrupam nas práticas corporais da capoeira.

Essa linha de exploração de seu potencial foi sempre um dos mais populares. Mas é só uma delas.

Tem uma vertente cultural forte e extensa dentro da capoeira: sua música, teatro, shows (de teatro e de rua), instrumentação (temos capoeiristas que se tornaram grandes músicos, inclusive em Brasília), criação musical, a construção de instrumentos como atabaques, pandeiros, agogôs, reco-recos, etc.

Outras formas de relacionamento dos capoeiristas com sua arte envolvem a produção de eventos. Isso envolve uma dimensão da produção de projetos, de peças de divulgação como cartazes, vinhetas para rádios e tv, negociação com patrocinadores e órgãos governamentais, pais e comunidade.

Mas não para aí! A capoeira tem uma linha de pesquisa que a explora em diversas disciplinas, em todos os níveis da educação, desde livros para crianças, revistas, dicionários, até contos e romances capoeirísticos, chegando-se a universidades onde se pesquisa a capoeira em Antropologia, História, Política, Sociologia, Arte, Música, Matemática (acredite!!) e muitos outros.

Em outra perspectiva, encontramos a relação institucional. A parte burocrática dos grupos, de federações, confederações, ligas, programas em rádio, televisão e internet.

Estou apenas ilustrando isso!!

QUANDO A MÃE CAPOEIRA FICA BRAVA!


A capoeira, como toda e qualquer outra atividade humana, traz espaço para a dissonância.

Algumas pessoas sentem a força da capoeira pulsando em suas veias e resolve tornar isso um mecanismo de promoção pessoal. Fica magnetizado pelo poder que ela lhe traz. Aí isso vira uma patologia social.

Outra forma de dissonância é a exacerbação do EGO. Essa coisa estranha que afeta o ser humano quase que inevitavelmente... a questão é quando isso vira uma patologia descontrolada.

Ver artigo sobre o EGO neste blog no link abaixo:
Ego na Capoeira - ego, esse miserável!!!

Outra patologia que estamos enfrentando neste momento em grande intensidade é a tentativa de manipular a capoeira em benefício próprio, institucionalmente!!!

Essa veia patológica é uma perigosa tentativa de se criar mecanismos de apropriação da capoeira, seja por meio de uma exploração comercial despudorada, seja pela tentativa de usurpação da arte, como uma espécie de federacionismo compulsório. Que tenta obrigar as pessoas a se filiarem a entidades federalizadas que se incluem burocraticamente no sistema desportivo nacional e internacional e busca, como está acontecendo agora, com a tentativa de aprovar leis que nos subjugariam a essas entidades nefastas, normalmente desorganizadas, corrompidas em suas estruturas, cheias de conflitos internos e disputas sem a menor ética entre os líderes!

A essas patologias todas sofrem uma reação muito forte contra ela, que brota dos terreiros da capoeira de forma espontânea e informalmente organizada, criando nos capoeiristas uma rejeição sem trégua!

Os que tentam essa forma de usar a capoeira, sofrem na pele a consequência de suas ações, afinal, todos nós capoeirista sabemos:

A capoeira te dá muito, mas ela cobra de volta...

De volta ela quer sua dignidade... sua moral... seu respeito às suas raízes... seu respeito à ancestralidade...

Sem isso, somos capoeiras incompletos!

Sem humildade, somos apenas seres humanos em um processo de aprendizado, sem querer aprender!!

Yêh, vamu s'imbora, camará!!!

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Ser um capoeirista eficiente, ou ser eficaz...?

É comum vermos capoeiristas empolgados com sua competencia. com sua performance, ou menos com o respeito que despertam em outras pessoas.
Alguns se tornam até petulantes na sua exacerbação egóica e perdem completamente a humildade, pelo simples fato de se sentirem o máximo, o melhor dos melhores...
Esse é um sintoma, na verdade, de uma fraqueza de caráter ou de autocrítica mínima.
Esses atletas capoeiristas são muitas vezes muito bem treinados, e além da capoeira são também lutadores de outras artes, são fortes e possuem uma estrutura física privilegiada.
Nada errado, quanto ao sentimento de auto-estima ser logo manifesto nos praticantes dessa Arte Secular, que hoje já acumula uma sabedoria e uma técnica bastante complexa, bastante sofisticada, no sentido mais amplo de conhecimentos marciais, desportivos, atléticos. Uma cultura bastante sedimentada como conhecimento popular, da qual nenhum lutador de nenhum estilo pode ou deveria subestimar.
A Capoeira é ímpar. É múltipla. Cada um desenvolve com seu proprio corpo suas habilidades e competências, o que torna cada jogador, cada indivíduo, tem um estílo único, adequado ao seu biotipo, desenvolve a sua técnica baseada na linhagem que aprende. Cada linhagem tem sua origem em tempos remotos. É uma cultura cumulativa. É um conhecimento cada vez incorporado ao que já existia.
Enfim, pode-se dizer que um capoeirista é a soma de toda a história de sua linhagem de aprendizado.
Resta saber se ele faz as escolhas certas com sua postura, com o caráter que assume, enquanto praticante e representante de sua escola.

O ESTILO E A ÍNDOLE

Uma coisa é o estilo pessoal. A outra é a índole.
Uma pode ser totalmente legítima. A outra pode ser aceita ou não. Depende do grau de respeito que sua índole tem para o com os demais praticantes de sua arte.
Vi diversas modalidades dessa índole se manifestar, entre elas, na indiferença ao que parece não ser digno de respeito.
Até mesmo num certo grau de fria avaliação: esse é sarobeiro...! (que parece significar alguem sem valor, de um jogo tosco, que não merece nenhum respeito!!)
Esse julgamento, desrepeitoso, é um sintoma de um capoeirista presunçoso que já de cara se julga melhor que os outros.
Eles podem até ser bons jogadores, mas certamente não serão bons capoeiras!

Esse o nosso problema. Ser eficiente em um jogo, ou ser um capoeirista que sabe gingar com as diferenças pela vida toda!

O quadro abaixo representa uma comparação entre os dois aspectos do crescimento de um praticante de capoeira.


Essa breve tabela oferece uma visão do que seria um projeto a curto prazo de um capoeirista, ou um capoeirista maduro que sabe a diferença entre o imediato e o duradouro...

Esse é o grande conflito entre a eficiência e a eficácia, na vida de um Capoeira!